30.9.07
Mudou tudo menos o modelo mental
OSCAR MOTOMURA - O que não mudou foi o modelo mental. Evoluímos nas ferramentas, nos métodos, nas técnicas gerenciais - hoje mais refinadas, elegantes - mas, em essência, as pessoas ainda são consideradas como recursos. "Abrir espaço" significa também que, em algum ponto da História, o humano perdeu espaço ou teve seus espaços fechados… Compreender isso é fundamental a este debate.
ABRH - Qual seria a verdadeira mudança do modelo mental?
OM - Seria ver a organização como pessoas que servem pessoas. É o verdadeiro conceito de servir aos seus semelhantes. Em princípio, toda organização nasce para servir às necessidades humanas. Se ela não fizer isso, não sobrevive, pois no fundo ela é desnecessária.
ABRH - Nesse sentido, estamos precisando de evolução ou de mudanças radicais?
OM - Evoluir é sempre algo inerente à sociedade e às organizações. O problema está na "pseudo-evolução". Achamos que estamos evoluindo mas, na verdade, estamos indo para a direção errada e acabamos chegando a uma situação em que o humano perde o seu lugar. De essência, o humano vira algo periférico. Tentar melhorar a situação ficando nesse periférico não leva a muita coisa, mas é a armadilha em que muitas organizações estão presas hoje: têm uma estratégia equivocada, um modelo de negócio superado, uma estrutura obsoleta. E têm programas de melhoria contínua, tentando melhorar o que já está superado. Um verdadeiro paradoxo… O que essas organizações precisam é de transformações radicais. Radicais porque precisam renascer pela raiz: criar uma nova estratégia, reinventar seu modelo de negócio, conceber estruturas inéditas… É o que precisamos urgentemente na área humana. Uma mudança pela raiz.
ABRH - Para gerar resultados, a conectividade precisa de certas qualidades que mudem o conceito mecanicista da palavra resultado?
OM - Quando o humano volta ao centro de tudo, todo tipo de conexão, toda forma de relacionamento muda automaticamente. De algo meramente utilitarista, a conectividade tem agora um propósito nobre: servir às pessoas com genuíno interesse de ajudar, de fazer com que a vida das pessoas melhore, de fazer o bem. Nessa visão, o próprio conceito de resultado muda. Resultado nesse novo patamar de consciência gira em torno de questões mais sutis. Estamos fazendo real diferença? Estamos ajudando ou prejudicando quando, por exemplo, se criam necessidades artificiais na mente das pessoas para "empurrar" produtos? Que legado estamos deixando para a sociedade e futuras gerações? Estamos ajudando a construir ou estamos poluindo, desmatando, prejudicando a saúde das pessoas, deseducando etc.? Na medida em que tivermos coragem de nos fazer questões como essas, evoluiremos naturalmente na direção de outros significados da expressão "resultados".
ABRH - A conectividade deve ocupar os espaços vazios ainda não explorados ou mesmo não identificados nas organizações. Que tipo de configuração uma organização teria se reduzíssemos os "gaps" existentes entre pessoas, processos e sistemas?
OM - Há muitos espaços vazios nas organizações. Desde aqueles gerados pelas megamudanças no contexto externo a "buracos negros" representados por problemas que não estão na seara de ninguém. Há ainda as oportunidades não aproveitadas porque a área X não fala com a área Y. Há também os espaços não ocupados por ignorância: área A não pede ajuda à área B porque não sabe que esta tem condições de ajudar. Vendas, Produção, Marketing, Finanças, Pesquisa não pedem ajuda ao RH porque não sabem que lá estão as pessoas que mais entendem de gente de toda a organização.
ABRH - E quanto aos espaços vazios em RH?
OM - É quando RH paradoxalmente não tem ainda em seus quadros as pessoas que mais entendem de gente… Têm grande preparo técnico, mas sequer se vêem como as pessoas que deveriam entender o humano com mais profundidade.
ABRH - Que tipo de estrutura organizacional consegue resultados sem gaps, sem esses "vazios"?
OM - Certamente não é a estrutura mecânica tradicional, com hierarquias baseadas em comando e controle. O tipo ideal de resultado - sem gaps - só será obtido por estruturas onde as pessoas têm grande liberdade de criar e vão entrando onde é necessário, mesmo gerando algum tipo de superposição. Muita liberdade, mas também muita ordem no que é nuclear, o que é essencial, ordem essa gerada por princípios internalizados e praticados rigorosamente por todos. É o tipo de estrutura "biológica" muito diferente das velhas receitas mecanicistas que todos nós conhecemos. Convido os interessados a entrar mais fundo neste debate, a acessarem o site www.oscarmotomura.com.br e lerem o artigo "Caórdico: Presente e Futuro".


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