30.9.07
Personalidade
Personalidade do tipo A
Foi na década de 1960 que surgiram as primeiras evidências científicas sólidas demonstrando o vínculo entre as emoções e a doença cardíaca. Dois cardiologistas de San Francisco – Meyer Friedman e Ray Rosenman – identificaram um conjunto de características comportamentais que chamaram de personalidade tipo A: constante agitação, hostilidade de fácil expressão e intensa competitividade (o tipo B não possui estas características). Estes médicos prepararam um estudo prospectivo para demonstrar que o comportamento tipo A constitui fator de risco para a doença coronariana. Constataram que, mesmo na ausência dos fatores de risco físicos antes mencionados, o comportamento tipo A aumentava a risco de doença coronariana nos homens.
Outros estudiosos, como o Dr. Redford Williams, da Duke University, demonstraram que nem todos os componentes do comportamento tipo A exerciam igual efeito negativo sobre o coração. Hostilidade e ira, sobretudo, além de não serem responsáveis por qualquer fator de recompensa psicológica ou social (ao contrário da competitividade, por exemplo), se tornaram mais evidentes como fatores agressivos ao coração. Ainda mais, de um ponto de vista médico, a ira retida ou controlada pode aumentar os níveis de hormônios do estresse que circulam no organismo, o que pode exercer vários efeitos negativos, a longo prazo, sobre o sistema cardiovascular.
A Via Biológica Para a Doença Cardíaca
Mencionamos na introdução que uma elevação súbita nos níveis circulantes de adrenalina pode provocar a fatal fibrilação ventricular e também levar as células musculares cardíacas (miocárdio) a um estado de hipercontratilidade que as impede de funcionarem. Em contraste com estes efeitos imediatamente fatais, de maciço estresse agudo, a hostilidade age de modo lento, ao longo de anos, danificando o sistema cardiovascular. As exatas conexões fisiológicas entre hostilidade e dano cardíaco de longo prazo ainda são desconhecidas, mas pode-se antecipar alguns passos com bastante segurança.
Sabe-se que a adrenalina faz elevar-se a pressão arterial, faz o sangue coagular-se mais rapidamente e faz acelerar uma série de outros processos fisiológicos que convergem para incrementar a formação e crescimento das placas de ateroma. Estas são geradas pela deposição de colesterol, restos celulares e outros materiais biológicos nas paredes internas das artérias, sobretudo as coronárias. O calibre interno ou espaço interno livre da artéria (que em linguagem médica também conhecemos como "luz arterial"), vai-se reduzindo de modo gradativo, deixando menor espaço para a passagem do sangue.
Isto, de um lado, faz aumentar a pressão arterial, com todos os seus riscos; de outro, cada vez que se tem uma placa ateromatosa, tem-se o risco de que esta venha a instabilizar-se, entrando em "erupção", à semelhança daquilo que ocorre com um vulcão (sob pressão elevada, a probabilidade de instabilização da placa aumenta muito). O material aí liberado entra na corrente sangüínea e vai alojar-se em algum ponto – naquela mesma artéria ou em outra qualquer, podendo obstruí-la por completo. Este é o tipo mais comum de infarto. Seu significado prático é que o tecido vital – como o músculo cardíaco – dependente do sangue conduzido por aquela artéria, vem a morrer por falta de suprimento de oxigênio transportado pelo sangue, a menos que alguma forma de "socorro" possa ser encontrada pelo organismo para salvar o tecido afetado. No caso específico do coração, conforme citamos antes, este processo é o responsável por cerca de metade das mortes no mundo ocidental.
Uma das formas pelas quais os hormônios do estresse, especialmente a adrenalina, contribuem diretamente para o processo patológico de formação da placa de ateroma, é facilitando a mobilização das gorduras do organismo – levando-as a serem retiradas dos depósitos gordurosos e conduzidas à corrente sangüínea. Isto faz elevarem-se os níveis de colesterol, que a seguir se acumula nas placas ateromatosas.
A adrenalina se apresenta elevada em pessoas hostis também na vida real, e não apenas em condições de laboratório.
Para piorar ainda mais as coisas, pessoas hostis que também revelam tendência biológica a apresentar altos níveis sangüíneos de colesterol, sofrem de um efeito sinérgico. Altos níveis de colesterol constituem um dos principais fatores de risco para doença cardíaca.
Como se os efeitos biológicos da hostilidade não fossem suficientes, pesquisas recentes indicam que pessoas hostis têm muito maior probabilidade de se envolverem em comportamentos que põem em risco a sua saúde. A psicóloga Ilene Siegler, estudando cerca de 5.000 estudantes da Universidade da Carolina do Norte, demonstrou que os que apresentavam elevados escores de hostilidade à época do início do estudo (década de 1960), depois de algumas décadas muito mais provavelmente apresentavam obesidade, muito mais provavelmente se haviam tornado fumantes, consumiam maiores quantidades de álcool, apresentavam mais elevados níveis de colesterol LDL ("mau colesterol") e mais baixos níveis de colesterol HDL ("bom colesterol"). Outro estudo semelhante demonstrou que pessoas com altos escores de hostilidade consumiam, em média, 600 calorias diárias a mais que pessoas com baixos escores.


criado por zeitoun
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